Um Plano Simples

Avaliação: 5 de 5.

A Simple Plan, 1998

A simplicidade parece o princípio da encenação. Apenas parece. As primeiras cenas são todas filmadas com lentes grande angular, dando conta da imensidão da paisagem branca e gelada. Em escala com os cenários, os personagens se revelam em princípio diminutos, como pequenos borrões. Então esses diminutos borrões ganham nomes e o drama se agiganta. Tanto as conversas entre Hank Mitchell (Bill Paxton) e o irmão Jacob Mitchell (Billy Bob Thornton), como a relação de Hank com a esposa grávida Sarah Mitchell (Bridget Fonda) são frias, desesperançadas. É como se os sonhos destes pobres coitados tivessem sido corroídos pelo ambiente, sugados pela terra estéril.

Um dia, no entanto, Hank, Jacob e Lou (Brent Briscoe), encontram no meio do nada, um avião abandonado, e uma sacola contendo quatro milhões de dólares. Ou seja, quatro milhões de “problemas” em uma sacola. Os corvos à espreita sabem que os três, por maior que seja a discussão, vão ficar com o dinheiro. Pois se quatro milhões são sinônimos de problemas, também podem ser sinônimo de soluções. Então eis o plano simples proposto por Hank Mitchell: “Quando a neve derreter, a primavera chegar e ninguém reclamar da falta do dinheiro, dividiremos a quantia em três partes iguais. Até lá a soma fica comigo”, não é dito de forma literal, mas é a ideia. Os corvos, pássaros que representam mau agouro, permanecem ali, como que prenunciando que o acordo não vai dar certo.

De fato, a partir desse momento, o branco da planície e os pequenos pontos pretos que Hank e seus amigos se parecem, começam a se embaralhar na paisagem.

Primeiro aflige Lou como uma comichão, como uma tentação de liquidar as dívidas, afinal ele está desempregado. Depois a ansiedade toma  Jacob, Hank e, logo, Sarah também fica sabendo e a confusão está armada. A ansiedade dá lugar ao egoísmo e a ganância oculta de cada protagonista. O dinheiro continua guardado, parado, mas as cabeças ficam a mil. Geram desconfiança e levam os personagens a reviverem velhos ressentimentos. O roteiro de Scott B. Smith dá uma pitada de vulgaridade ao ambiente interiorano. Como no quadro de Grant Wood, Gótico Americano, o homem do campo não tem nada de saudável. Esconde sim algo de sinistro por trás daquele rastelo. E a direção de Raimi discretamente emoldura a trama. É inteligente na forma como vai sinuosamente cercando os personagens e apertando-os. E, aos poucos, a imensidão da paisagem que vimos progressivamente se reduz ao psicológico dos envolvidos.

Outro dado inteligente da mise en scène: o filme é um suspense, mas não temos aqui o jogo de sombras, nem os clichês dos becos escuros. Tudo acontece na claridade do dia. Talvez seja por isso que a comunidade inteira pareça tão contida. Há um tremendo cuidado dos habitantes para não se expor. Os cidadãos não se exaltam, o único escândalo que se ouve na região é o silvo do vento. Portanto, se um personagem acidentalmente é morto, e vários terminam com esse destino, terão que ser rapidamente enterrados para não gerar evidência.

E os corvos, que no início simbolizavam a maldição, ironicamente cedem lugar a uma raposa que vai cruzar o carro dos homens e furtivamente demonstrar no que a índole da esperteza, pode levar àqueles amigos. Primeiro a raposa os fará bater a caminhonete. E numa cena posterior, os dois irmãos, matarão um fazendeiro que estava na trilha da raposa, e eles imaginavam que tinha descoberto o avião.

Um Plano Simples é um filme atípico de Raimi. É como se pela primeira vez, ele esquecesse o divertimento, para falar a sério de um assunto, sem medo de mexer num tema espinhoso. A saber, a natureza bêbada e retorcida dos iludidos. Em Um Plano Simples, Raimi fala com a propriedade de alguém que já teve mais que um íntimo contato com situações de combate em Hollywood (perdeu projetos, modificaram o traçado de algumas de suas ideias mais caras, inúmeras vezes tentaram sugar sua vitalidade). Isso parece ter reforçado no cineasta uma visão um tanto cética com relação às contradições inerentes ao ser humano, sujeito a demonstrar seu lado negro em situações-limite, sejam elas determinadas pelo poder, pelo egoísmo, pela ganância. E é exatamente isso que acaba paulatinamente por contaminar Hank.

É certo que o ceticismo de Raimi se identifica mais com a sabedoria e cisma de Jacob, o que fica claramente patente durante a sequência na qual Hank, após colocar o dinheiro no saco declara sua amizade e solidariedade a Lou, acompanhado pelo olhar incrédulo de Jacob, já prevendo o que poderá suceder futuramente. Todo o elenco está muito bem em cena, mas Billy Bob Thornton se sobressai como Jacob Mitchell (Thornton chegou  a final para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel). Seu personagem tenta trazer a lucidez aos parceiros, mas cada um quer manter seu sonho louco, perdendo completamente a noção moral das coisas. Não adianta tentar desfazer a miragem, todos estão condenados. O que sobra são os rastros dos homens na neve, rastros que pelo imenso frio, não precisamos seguir para sabermos que teremos cadáveres congelados no final.

Um Plano Simples remete a tudo do que Hollywood foge. Podridão, decrepitude, desilusão. Diretores mais conceituados e, ditos corajosos, passaram a carreira inteira em Hollywood sem mexer num vespeiro desses com igual vigor. Raimi, um relés diretor de filmes de terror, mexeu, e fez de Um Plano Simples seu filme mais pessoal.