Uma Cidade Que Surge

Avaliação: 4.5 de 5.

Dodge City, 1939

Michael Curtiz era um mestre do filme de aventura (Capitão Blood e As Aventuras de Hollywood), tinha um talento para criar cenas pictóricas marcantes e, quando a essa fórmula adicionava a presença do carismático Errol Flynn, o sucesso era garantido. Uma Cidade Que Surge está entre os mais eletrizantes filmes que a dupla rodou junto.

A trama funde no personagem de Flynn, dois mitos do oeste, Wild Bill Hickok e o xerife Wyatt Earp, e o filme não dá trégua para o espectador nem buscar a coca-cola na geladeira. Um prólogo ambientado em 1866 mostra a fundação Dodge City. A ferrovia chega, trazendo a turbulência das grandes cidades e multidões tomam as ruas com muitos jogos de interesses. Assim não demora para Dodge City se transformar em Sin City, um lugar de corrupção e violência onde o traficante de gado Jeff Surrett (Bruce Cabot, King Kong) governa através da intimidação.

O homem que vai restaurar a ordem para que a cidade possa alcançar seu potencial civilizado nas terras sem lei é o irlandês Wade Hatton (Flynn), um ex-funcionário da ferrovia que caçava búfalos para ajudar a limpar o caminho para os trens. Wade e seu amigo, Rusty (Alan Hale, essencialmente reprisando seu papel como Little John, de Robin Hood), entram em desacordo com o chefão Surrett, mas se esforçam para ficar longe de encrencas. Acontece que quanto mais a dupla tenta ficar alheia, mais a encrenca cai no colo. Há um estouro de manada! Uma briga de saloon! A maior e mais devastadora briga de saloon já vista num filme do gênero! E uma dançarina atrevida! E acrobacias de cavalos! E uma multidão enforcada! E um tiroteio em um trem em chamas!

Até a mocinha impõe empecilhos a Wade, a bela Abbie Irving (de Havilland), uma das colonas, o responsabiliza pela morte de seu irmão na debandada de gado.  

Enfim, acontece tanta coisa que só resta a Wade pegar a estrela do xerife, limpar Dodge, e se acertar com a garota. Não há nada de surpreendente na história, espantoso, sim, é a maestria de encenador de Curtis, o domínio que ele revela em, às vezes contrair, outras em dilatar os tempos, e o entusiasmo com que chega ao clímax. Ele toma até uma liberdade, à certa altura, mostrando como a morte de uma criança afeta a moral dos colonos, e o episódio serve de gota d’água para o duelo final de Wade com  Surrett e sua quadrilha.

Há inúmeros relatos que pintam Michael Curtiz como um déspota, que desprezava os atores, abusava dos técnicos e, que chegou até a matar animais, no entusiasmo grandiloquente com que rodou a batalha de A Carga da Brigada Ligeira, mas penso que talvez tudo isso tenha sido construído como marketing para tornar sua figura de diretor folclórica. Um tirano não conseguiria unir a mesma equipe por quase duas décadas, como se fosse uma equipe de repertório, e nem obter espetáculos com tanta harmonia em tantas quesitos.

Uma Cidade que Surge é “Classic Western” sem desvio. Um filme  portentoso e tão eficaz, passado numa Terra do Nunca, mas mesmo assim guardamos na memória com imenso carinho.