Uma Noite Alucinante 3

Avaliação: 3 de 5.

Evil Dead, Army of Darkness, 1992

No final de Uma Noite Alucinante 3, Ash é sugado para dentro do Livro dos Mortos e cai numa realidade alternativa. Um mundo primitivo, onde habitam cavaleiros medievais, feiticeiros e monstros da era jurássica. Houve uma imensa expectativa dos fãs para visitar esse universo.  Dino de Laurentiis, contudo, brecou o projeto, alegando que  já não se tratava de um filme “B”. Raimi, por sua vez, declarou que só voltaria à Evil Dead se pudesse recorrer a maravilhosa técnica de stop motion.

Acontece que a nova onda no começo da década de 1990 convergia para a criação de efeitos digitais, e a ideia de Raimi para qualquer produtor parecia excêntrica e arcaica demais. Quando em 91, ele conseguiu a verba para viabilização, seu estudo das técnicas de animação estavam bem apurados. O que faltava era um bom roteiro. Como ele não tinha despendido esforços neste sentido, essa terceira parte ressente da qualidade dos filmes anteriores.

Do ponto de vista de invenção, o filme é engessado.. O stop motion, na época, não podia ser feito com movimentos de câmera, e boa parte da criatividade de Raimi está atrelada a forma como sua digníssima câmera se movimenta. Como Brian DePalma, Raimi é um dos raros diretores em que o ritmo da narrativa nasce da câmera. O segredo da sua arte reside da elaborada coreografia da encenação.

Sendo assim, o filme é quase exclusivamente atrelado ao desempenho bufão de Bruce Campbell, que é divertido enquanto cultiva o disparate de ser interpretado como uma ameaça pelos vilões. A cada novo cenário, que entra para conquistar, Campbell apronta uma patetada. Algumas vezes, como no instante que tem que repetir a senha que pode tirá-lo daquele local e não se lembra das palavras, é impagável; do meio para o fim, contudo, as situações se repetem, e o filme fica um tanto previsível, um traço tão pouco característico do cinema de Raimi.

Claro que  em se tratando de Raimi, não chega a ser vergonhoso como o filme de esportes Por Amor, ou decepcionante como o insosso O Dom da Premonição. Uma Noite Alucinante 3 tem lá seus achados. As referências a clássicos da literatura como Um Americano na Corte do Rei Arthur e Viagens de Gulliver são abruptas, mas saborosas, sobretudo, na sequência da luta entre Ash e seu clone. O herói despedaça seu duplo e ele  se multiplica em centenas de Ashs liliputianos. Em outro grande momento,  Ash enfrenta  um exército de caveiras, uma homenagem afetiva ao mestre Ray Harryhause e seu antológico Jasão e os Argonautas (1963).

            Enfim, talvez os erros valham mais que muitos acertos. Raimi demonstra um carinho especial quando fala deste filme, especialmente porque remete aos primeiros rascunhos de um jovem e protocineasta, que aos 12 anos tentava criar um rudimentar stop motion com as peças de um tabuleiro de xadrez. Em essência, o cinema é uma combinação disso: da magia, seja ou não, precária, de fazer tanto peças inanimadas andarem como dar vida a esqueletos.

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