Uma Noite Alucinante

Avaliação: 5 de 5.

Evil Dead 2, 1987

Depois do fracasso mais do que injusto de Crimewave: Dois Heróis Bem Trapalhões, Dino de Laurentiis propôs a Sam Raimi fazer um remake de Evil Dead: A Morte do Demônio. Em princípio, Raimi achou a ideia absurda e o convite uma ofensa. Aceitar seria como que atestar sua incapacidade para fazer qualquer outro tipo de filme. Por outro lado: primeiro, havia muito muito dinheiro envolvido, segundo, havia se passado seis anos da rodagem e Raimi estava sem nenhum projeto aprovado, terceiro, voltar aquela cabana trazia a perspectiva de um novo olhar. De fato, o cenário e a história são quase idênticos, mas quem disse que não dá para criar uma sensível diferença?

Raimi praticamente reinventa A Morte do Demônio”. Em vez de um quinteto de amigos, Ash (o mesmo Bruce Campbell) agora chega a cabana apenas com a namorada Linda (Denise Bixler). E, quando as manifestações fantasmagóricas irrompem, isso parece tão pouco maligno que eles reagem como se os objetos caseiros estivessem encenando um espetáculo de variedades. Verdade, tem machado, serra elétrica e faca afiada, mas Raimi perversamente faz parecerem brinquedos. Linda é possuída e, em vinte minutos, o amor de Ash pela vida ganha premência sobre o amor pela namorada. Assim, matar Linda lhe parece uma ideia natural.

As brincadeiras aqui são tão caricatas que morrer não oferece nenhuma  sensação de pesar. É como se soubéssemos que atrás desse espaço cênico, os atores se divertissem com a contabilidade de quantas vezes vão voltar pra barbarizar.

Em seguida, Ash tenta fugir dali, mas a única saída da montanha é uma ponte que foi destruída. O homem, ilhado, se apavora. Como não há outra vítima para o fantasma maligno cutucar, o espírito baixa em Ash.

Uma ousadia: metade do filme se concentra na absurda luta de duas forças dentro de um mesmo corpo. E, para isso, Raimi conta com o talento de Bruce Campbell para a pantomima. Claro, não é uma representação precisa. Ela é toda desajeitada, mas por isso mesmo maravilhosa. Evoca Os Três Patetas, os desenhos dos Looney Tunes, o furor de Pepe Le Pew, o Coiote e Papa Léguas. A sequência em que a mão adquire vontade própria proporciona aquele mesmo prazer nonsense que tínhamos quando assistíamos os cartoons de Chuck Jones. O tom é crescente. A mão desobedece ao dono. Ash tenta domá-la. Ela quebra uma dúzia de pratos na cabeça de Ash. E, quando acreditamos que Raimi chegou ao limite, ele toma novo fôlego e alucina, mostrando Ash se livrando da mão com um machado e, em seguida, a maldita mão solta, correndo como um rato, enquanto o ex-dono a persegue como numa frenética caçada ao estilo Tom & Jerry. 

A atuação de Campbell, magro, perplexo, é tão incomum que respeitamos esse pobre diabo mesmo quando irremediavelmente ele se revela um pateta. Não importa quantas vezes seja esmagado como uma panqueca (e isso acontece com uma divertida regularidade), ele se levanta segundos depois, barulhento e frenético.

E então passamos para uma trama paralela, envolvendo a filha do professor de arqueologia que teria sumido naquela mesma cabana. De fato, o velho professor virou sopa, mas a mãe da mocinha, uma certa Henrietta, é a personificação da morbidez que faltava para o humor virar horror. Para muitos, contudo, Henrietta é tão grotesca que, um episódio surrealista como o de Ash apertando a cabeça da bruxa até o globo ócular saltar seria apenas uma demonstração de violência, se não houvesse do outro lado uma situação nonsense, uma donzela daquelas insuportáveis que gritam o filme todo e que a gente quer ver calar. Pois o olho da bruxa cai exatamente dentro da boca da mocinha, levando a cena mais uma vez ao patamar cômico. Sam Raimi tem uma imensa coragem, sua fusão ambiciosa de desenhos e comédia ao vivo é intermitentemente divertida. Em toda cena, podemos sentir a alegria do diretor à medida que ele acumula mais e mais coisas estranhas em cada cena. A densidade de piadas e referências amontoadas parece feito para estalar o sistema nervoso.
E os diálogos, bem, esses têm pouco a acrescentar. A narrativa está apegada ao desenho, ao plano, à montagem, ao entreplanos: linguagem cinematográfica pura. A câmera, o estilo visual, a edição, um conjunto que destila energia cinética e adrenalina, apresentando apelativas texturas de cores e um curioso trabalho de iluminação.
Divertimento grotesco, excêntrico, essa Noite Alucinante continua mesmo décadas depois, superando os novos “filmes de terror adolescentes” indistintos e saídos de uma linha de montagem formatada.

Contra a ressaca do gênero, eis um excelente revigorante.

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