Vidas em Jogo (1997)

Avaliação: 4.5 de 5.

Goste-se ou não dos filmes de David Fincher, há sempre algo muito claro: um cinema inquieto que não se prende a moldes. Fincher parece mudar e se renovar a cada filme. E neste Vidas em Jogo, pela primeira vez, r revela seu imenso senso de humor. Sarcasmo, a bem da verdade, que ele desfere contra um mundinho de seres vaidosos, imediatistas, bitolados e falsos.

O protagonista em questão é um tal Nicholas Van Orton (Michael Douglas), empresário de sucesso, que mora em uma mansão isolada nos arredores de São Francisco. Ele também é um homem frio, ríspido e antissocial, capaz de comemorar o próprio aniversário comendo um hambúrguer em uma bandeja de prata, em frente à TV. Um rápido flashback sugere que Nicholas talvez seja recluso por causa do suicídio do pai, cometido no mesmo casarão – as cenas surgem durante os créditos iniciais, como uma melancólica montagem de filmes caseiros adornada por uma canção pungente levada ao piano.

No mesmo dia do aniversário, só que um pouco antes, o solitário Nick recebe um convite: almoçar com o irmão caçula, Conrad (Sean Penn). Este é o oposto, um jovem rebelde que se envolveu com drogas e por isso foi afastado dos negócios familiares, enquanto o irmão assumiu tudo sozinho. Conrad dá a Nick um presente: um cartão de uma firma chamada Consumer Recreation Services. E é especialmente persuasivo ao recomendar: participe do Jogo. “Não posso dizer o que é, mas mudou a minha vida para melhor”, avisa.

Nick não dá muita atenção, mas, sem querer, se encontra, no dia seguinte, em frente ao prédio da CRS. Ele entra, é recebido por um gerente prestativo, chamado Jim Feingold (James Rebhorn), preenche alguns formulários e é obrigado a fazer exaustivos testes. Irritado, acaba sendo interrompido durante uma reunião, no dia seguinte, por uma secretária do CRS ao celular. Ela avisa que ele não foi aceito no Jogo. E bate o telefone na cara dele.

Nick dá de ombros pro fato, mas quando chega em casa, se depara com uma brincadeira de mau gosto. Um macabro boneco de palhaço na porta da frente, posicionado da mesma forma como o cadáver do pai foi encontrado, décadas antes. Nick não percebe de imediato, mas ele está no Jogo.

Daí para a frente, o filme assume um tom cada vez mais delirante, o que, para alguém como Nicholas, um sujeito maníaco pelo controle, é um inferno pessoal. Sua maleta não abre. Uma caneta mancha de tinta sua camisa. O apresentador de seu programa de TV favorito interrompe o programa para conversar diretamente com ele. Uma garçonete derruba um copo de uísque no seu terno. Para alguém que sempre se gabou de não pertencer a grupos e ignorar seus códigos, tudo parece cair de uma vez em sua vida. E ele não gosta, quer se livrar.

Há um maravilhoso contrassenso neste pesadelo: quanto mais Nicholas se movimenta, mais fica com a sensação de imobilidade. E isso provoca gradativamente um mal-estar.

Aos poucos, Fincher acumula cenas e observações que vão ganhando sutileza e profundidade.

Fincher parece constatar que o “real”, ou ao menos o seu sentido, não é um fato dado, mas uma construção do olhar. Dependendo do ângulo do qual se olha, o sentido muda por completo. E é neste jogo de prismas que Fincher vai ampliando o exercício da mise-en-scène, aprofundando a construção narrativa, o controle do ritmo, a modulação do humor e das emoções. 

A partir daí, e da relação insólita que se estabelece entre Nicholas e o tal jogo, todas as interpretações são possíveis, incluindo as metafísicas: a vida como um longo sonho ou um encadeamento de sonhos, a arte como sortilégio que traz os mortos de volta à vida, o cinema como instrumento para captar, na superfície da matéria, o que está além dela.

Tudo isso se dá sem que Vidas em Jogo deixe de ser também, “simplesmente”, um cristalino suspense. Um thriller no qual Fincher repisa todos os clichês para nos oferecer algo novo.