Vingança Terrível

Avaliação: 4 de 5.

(The Raid, 1954)

Há muito pouco material escrito sobre os filmes do cineasta argentino Hugo Fregonese e, especialmente sobre seus anos em Hollywood, de 1950 a 1956. Pois neste período ele fez nada menos que onze filmes, com mais altos do que baixos, e três deles foram westerns muito certeiros, “O Paladino dos Pampas”, “Vingança Terrível” e “Flechas da Vingança”.

“Vingança Terrível” é o melhor deles. A trama é baseada em um incidente pouco conhecido da Guerra Civil, o atentado de um grupo de sulistas a St. Albans. Van Heflin é o oficial sulista que lidera o grupo de sete fugitivos da prisão confederada e se infiltram na comunidade de St. Albans para tramar um Assalto a Banco para financiar a causa Sulista. Enquanto a cidade está alegremente em festa pela passagem do General Sherman – os sete homens montam a estratégia: armar um grande incêndio para mudar a atenção de todos, ao mesmo tempo em que eles saqueiam o banco.

Naturalmente, nem tudo dá certo no plano, a cidade inteira pega fogo, e o chefe do grupo, Heflin, esquece da causa, para salvar a bela viúva nortista (Anne Bancroft). A viúva, que tem um filho, faz o inimigo contemplar outro mundo, e o ator Van Heflin é perfeito para dar uma encorpada no assunto. Ao olhar para o fogo se questiona sobre como a guerra abortou seus sonhos, aniquilando quase tudo o que poderia haver de positivo neles.

Mas a proeza maior do filme vem da direção de Fregonese. O tratamento é simples e preciso, o ritmo amplo, fluido e com um tremendo sentido pra ação (a seqüência do incêndio se alastrando sobre St. Albans é magistral). Depois, não há simplificação abusiva ou demagógica a serviço de qualquer mensagem política, mas a apresentação clara, rigorosa e inteligentemente dramatizada de homens perdidos entre lutar pelo Norte ou pelo Sul.
Nos seis anos em que esteve em Hollywood, Fregonese revelou-se o diretor pau-pra-toda-obra. O “profissional”, habilidoso de produzir com eficiência – muitas vezes a partir de material pouco promissor – amostras sólidas de entretenimento comercial. E ele fez isso não apenas dentro do prazo e do orçamento, mas muitas vezes com mais coragem do que se poderia esperar das banalidades que lhe deram para trabalhar.

Esses méritos, porém, deixaram Fregonese, que sempre sonhou em desenvolver seu próprio material, desgastado. Que facilidades Hollywood ofereceu que ele poderia desfrutar agora?

Em “Terça-Feira Trágica” (1955) ele transformou a fuga de dois condenados a cadeira elétríca numa experiência visual cada vez mais sombria, a ponto de à certa altura, o diretor de fotografia Stanley Cortez usar apenas velas como fonte de luz. Os executivos da United Artists reclamaram que o filme era muito escuro, e no filme seguinte, “O Ladrão do Rei” (1955) tentaram submetê-lo a regras, e Fregonese achou demais e caiu fora do filme e abandonou Hollywood.

Para um sujeito que não se apegava a raízes, ele se passou pela Itália (I Girovaghi [1956], La spada imbattibile [1957] Marco Polo [1962], Last Plane to Baalbek [FBI operazione Baalbeck, 1964]), Inglaterra, (O Rugido da Morte, Fugindo á Tempestade), Alemanha (Old Shatterhand [1964], Die Todesstrahlen des Dr. Mabuse [1964]) e Espanha (Terra Selvagem, 1965].

Sua vida inteira foi passada divagando ao redor. Então, talvez essa falta de acomodação tenha um fio comum em muitos de seus filmes: o desenraizamento da vida de um ou mais personagens.

Tematicamente, os filmes de Fregonese compartilham algumas das habituais inquietações e instabilidades parecidas com as de outro rebelde de Hollywood, o cineasta Nicholas Ray. Como foi observado por Jacques Lourcelles, curador de um Festival sobre Fregonese, apresentado pela Cinémathèque Francesa em 2003, seus filmes muitas vezes envolvem personagens em fuga. O desejo de escapar fisicamente de um ambiente e avançar pela planície. Desde seus filmes iniciais essa questão foi marcante: “Pampa Bárbara”, “Onde As Palavras Morrem”, “Paladino dos Pampas”, “Vingança Terrível”, “Terça Feira Trágica”, “I Girovaghi”. Às vezes, o desejo de escapar fisicamente, bastante comum em muitos westerns, está ligado a um desejo de escapar das amarras.

Fregonese manteve esse traço até o fim.