Winchester 73

Avaliação: 5 de 5.

Winchester 73, 1950

Quando o diretor Anthony Mann morreu em 1967, estava planejando um western baseado em Rei Lear, com as três ardilosas filhas, substituídas por três cowboys. Olho com uma certa dúvida sobre essa afirmação de Mann, por que de certa forma ele já tinha flertado com Rei Lear no western Um Certo Capitão Lockhart, mas talvez estivesse pensando em outros variáveis num novo filme, por que nenhum diretor de westerns se aproximou melhor da tragédia clássica com tanta propriedade.

Mann foi um dos maiores diretores do gênero não só pela inteligência e elegância de seus filmes., mas pela transcendência e por um sentimento de paisagem tão ambicioso quanto o de John Ford. Ele era um mestre dos grandes espaços, exuberante nos movimentos de travellings e pans, e também grande na forma como conjugava as planícies com a densidade  de seus protagonistas, homens dúbios e movidos por um agudo senso de falibilidade humana.

Os westerns dirigidos por Mann nos anos 50 estão entre os maiores filmes da história, e alguns, com certeza, vários passos à frente da sua época, como Winchester 73, E o Sangue Semeou a Terra e O Preço de Um Homem, todos estrelados por James Stewart.

Até mesmo Stewart aparece renovado nestes três filmes de Mann. Nunca tínhamos visto o ator vivendo personagens tão amorais. Sumia o solidário astro dos filmes de Frank Capra para emergir um sujeito de olhar fugidio, andar hesitante, imerso numa confusão de sentimentos (Hitchcock reconheceu essa dimensão relutante do ator, e, durante o mesmo período, também a explorou com grande efeito). Assim, em O Preço de Um Homem, um saco de dinheiro valerá para o cruel personagem de Stewart mais que qualquer pessoa e, em E o Sangue Semeou a Terra, ele será expulso de uma caravana de colonos, ao descobrirem seu passado de assassino.

Como Lin McAdam, em Winchester 73, ele já começa o filme perseguindo o sujeito que matou seu pai e roubou seu rifle: “… nem sei há quanto tempo acontece a perseguição, mas estou atrás dos dois!” e então, ele encontra primeiro a arma, que está sendo ofertada como grande prêmio de um torneio de tiro ao alvo e, em seguida seu irmão (Stephen McNally), que vejam só, foi quem matou o pai!

McAdam ganha o torneio, mas não consegue ficar com o Winchester, porque , de novo o irmão está lá para atrapalhar seus planos. É um tormento para o homem, se ele relutou no acerto de contas, sabe que agora está chegando a hora de resolver o assunto de uma vez por todas.

Matar o próprio irmão? Mann não tem a menor piedade em esboçar esse caminho sem volta, mexendo com os sentimentos de McAdam.

O filme também apresenta uma estrutura inovadora. O protagonista de Winchester 73, não é McAdam, mas a arma homônima que passa por várias mãos, inclusive por um índio (vivido numa ponta, por Rock Hudson!). A câmera segue o rifle, enquanto, no extracampo, sabemos quem é o dono da arma, e como tudo se encaminhará para um fim de convergência dos três elementos, o cowboy, a arma e o pistoleiro.

A mentalidade única de McAdam é uma característica de muitos dos heróis westerns de Mann, um estado de espírito deprimido e descrente do mundo que o aproxima do desequilíbrio.

Claro que McAdam anseia por recuperar seu rifle quase tanto quanto está atrás de vingança. Mas a história de uma arma de fogo passando por várias mãos não fornece apenas um conto de moralidade. A perda da Winchester é vista em termos muito mais privados, quase psicológicos, como se um pedaço da honra pessoal do cowboy fosse levada junto com o rifle.

Na verdade, a questão de honra desempenha um grande papel neste filme: ela é simbolicamente solapada por todos os que por algum instante empunham a Winchester. O rifle é roubado, contrabandeado, negociado, trocado… E, com o tempo descobrimos que para McAdam, recuperá-la, talvez seja uma chance de apaziguar algo que ele não consegue superar. A paternidade perdida.

Durante o filme McAdam encontra uma série de figuras paternas potentes, como Wyatt Earp e o Sargento Wilkes – presenças quem servem para ecoar e reforçar sua própria perda. O olhar no rosto exausto de McAdam no final do filme quando, empunha novamente a Winchester e se junta a Lola (Shelley Winters) e seu amigo, High Spade (Millard Mitchell), não apontam para uma redenção no final, algo para o qual 90% dos westerns da época se encaminhavam. Apenas sugerem que talvez, McAdam tenha encontrado um pouco de ordem em sua vida tumultuada.

Ao fazer Winchester 73, Mann finalmente teve a chance e o orçamento para aproveitar ao máximo seus talentos. Seus filmes anteriores tinham sido ambientados principalmente entre ambientes urbanos apertados e perigosos. Estabelecendo-se em um novo gênero, ele de uma vez mostrou grande resposta à paisagem, sobretudo, nos momentos épicos como o ataque dos índios ao pelotão do Sargento Wilkes. Em muitos de seus faroestes é perceptível que o território através do qual os personagens se movem não é apenas a geografia do Velho Oeste, mas também um eco físico do drama humano em curso.

De fato, os exteriores refletem o estado emocional de seus personagens. Assim, no início do filme vemos McAdam se movendo através de vistas abertas, antes de seu primeiro encontro definido em meio à desordem humana em Dodge City.

À medida que os acontecimentos prosseguem, a paisagem se torna cada vez mais inóspita até que no clímax do filme, o embate acontece num desfiladeiro – um ambiente claustrofóbico e áspero, apropriadamente prendendo os dois adversários num duelo intransigente.

Fugindo do padrão e buscando algo mais sutil e expressivo, com Winchester 73, Mann propiciou um novo marco para os westerns, e abriu caminho para as ressonâncias mais profundas do gênero, que se seguirão em todos os seus filmes posteriores.