Zodíaco (2007)

Avaliação: 5 de 5.

Filmes de serial killer normalmente desvendam verdades, chegam a certezas altamente significativas, promovem uma “justiça” que nós desesperadamente desejamos para as nossas próprias vidas. Mas a vida nem sempre nos concede esses prêmios. Zodíaco narra a história de um serial killer que entre o final dos anos 1960 e 1970, reclamou 37 assassinatos na zona de São Francisco. O número pode ter sido exagerado por uma fome de fama (acredita-se que pelo menos doze desses crimes sejam garantidamente de sua autoria), mas o efeito que a “presença” deste assassino teve no público foi devastador. A sociedade ficou alarmada com a impotência da polícia, e o medo ultrapassou os limites de São Francisco, a ponto de as autoridades decretarem o toque de recolher em várias cidades do estado da Califórnia. Ninguém podia andar nas ruas depois das dez.

David Fincher era criança e vivenciou o horror. Ficou tão marcado pelo episódio que o ressoou em Seven. Por melhor que fosse, porém, a trama de Seven era uma ficção, armada dentro de uma organização perfeitamente lógica e racional.Já a história do Zodíaco é anticlimática. Existe um assassino, mas sua imagem não se concretiza, porque as buscas nunca foram concluídas. Sabemos, no entanto, que ele existe e talvez ainda esteja por aí. A aflição é que nada pode ser feito. Foi essa mistura de pavor e impotência que marcou Fincher quando era um menino.

Como vender um projeto assim para Hollywood?

Como artista, ele tinha consciência de que precisava amadurecer antes de retomar o trauma. A  questão era como abordar o tema? Como transitar neste terreno pantanoso onde o voyeurismo ganha a urgência de todas as cicatrizes infantis?

Foram os créditos anteriores que permitiram que ele fizesse o filme.

A abertura é até tradicional. Noite estrelada. Um casal, em jogo de sedução dentro do carro não percebe, mas estão sendo observados. Quando dão por si já é tarde. E então Zodíaco se desenvolve correndo em duas frentes. Ao mesmo tempo que mostra o meticuloso procedimento de investigação ao serial killer, o filme resgata os anos 1970 e como o espirito do tempo foi mudando o modo de ser e de ver as coisas. O detalhe no início do filme com os logotipos, versão anos 1970, dos Estúdios Paramount/ Warner, que produzem, é muito mais do que uma recordação nostálgica da época: Fincher marca o seu território atirando os espectadores no clima de desconfiança política (o escândalo Watergate), de derrotismo (a Guerra do Vietnã) e de mudanças de atitudes nos diferentes aspectos do cotidiano (música, televisão, cinema).

Os personagens de Zodíaco estão ao serviço da história do assassino em série e das suas charadas. Como que desafiando as autoridades, o criminoso envia cartas criptografadas aos jornais, dando pistas dos próximos ataques. As mensagens são decodificas, mas as palavras são combinadas formando metáforas e charadas que dão margem a muitas interpretações. Cada passo em falso da polícia, o assassino comemora com uma nova carta cheia de cifras cada vez mais complicadas.

Habilmente o argumento dispõe os diferentes prismas da investigação. No início, a ênfase é sobre Paul Avery (Robert Downey Jr.), o jornalista encarregado de escrever sobre os assassinatos; depois David Toschi (Mark Ruffalo), inspetor linha dura que acredita piamente que resolverá o caso graças às novas ferramentas da ciência investigativa; e finalmente, com hora e meia de filme, Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal), o cartunista do jornal, que se especializa em decodificar as cartas. Existe um triangulação entre esses personagens, todos se cruzam e acabam, de uma maneira ou outra, sendo consumidos por um mísero papel cheio de símbolos.

O tratamento visual do filme é sofisticadíssimo. Em uma época, em que as terminologias tradicionais parecem ter sido substituídas pelo jargão transitório e superficial da publicidade, o que resta para fugir dos clichês? Fincher começa reinvestigando o espectro de cores. O vermelho, a despeito de sua conotação política trivial, ainda retém seu sentido de alerta. Por isso, antes de cada assassinato, algum elemento vermelho aparece como um aviso. Ao contrário de uma superfície colorida, um papel branco parece exigir um preenchimento, que nunca acontece. Fincher reforça essa ideia, espalhando as cartas pelas vidas dos três protagonistas. Para quem não entende os símbolos, olhar para aquele papel provoca aflição, é como se não houvesse nada ali. Como se fosse uma folha em branco.

Outro recurso inteligente é usar o noticiário televisivo para mostrar como a cobertura jornalística vai gradativamente mudando, passando dos fatos, para as especulações, e destas para o sensacionalismo e outras derivações. A midiatização do crime chega a tal ponto que leva um criminoso real a se transformar em personagem de história em quadrinhos.

Neste processo de mutações, a vida dos personagens também sofre revezes. Assistimos paralelamente, por exemplo, a evolução da vida amorosa de Graysmith, e o processo de desilusão intima do policial David Toschi, o durão, que perdeu todas as certezas, inclusive a fé no estudo da ciência comportamental.

Os espectadores que esperavam encontrar um novo Seven talvez se frustrem porque não estão acostumados a pensar no mal como um dado tão abstrato. Ainda assim Fincher nos lembra que o abstrato aqui é real e mata. As sequências dos crimes são de uma crueza perturbadora, ocas de humanidade, afinal é isso que o assassino almeja: extrair a vida a uma pessoa com frieza intelectual.

Zodíaco não teve o sucesso de Seven, nem virou um filme cultuado como Clube da Luta, muito menos ganhou Oscars e foi campeão de bilheteria como Benjamin Button, mas essa é a obra-chave na filmografia de Fincher. É um cinema de progressão e de busca do inesperado, não no sentido da simples surpresa de enredo, ou da reviravolta; está sempre em questão a renovação do imaginário, a demanda de uma descarnada vontade de explorar o mistério, o silêncio, a ausência. Os gêneros (todos os gêneros) servem a Fincher para os estilhaçar e os recompor à nossa vista. Nem sempre ele faz isso de forma tão eloquente, mas neste Zodíaco chega bem perto da perfeição.