Faroeste

O Regresso (2015)

Avaliação: 2 de 5.

O carinho desmedido que nós latinos temos pelos superlativos chega a ser engraçado. Herança cultural, trópicos, sol, resquício do romantismo mediterrâneo? O importante é como fala alto, arraigado na alma, como um tempero peculiar. De certo, o cinema de Alejandro Gonzáles Iñáritu tem esse exagero. Mas neste caso, não é uma vantagem. Pra não depreciar, das doze indicações ao Oscar que esse seu “O Regresso” está concorrendo, há uma muito justa. A de melhor diretor de fotografia para Emmanuel Lubezki. Pelo triunfo de trabalho de câmera.

Lubezki dança com a digníssima em qualquer terreno. Leonardo DiCaprio e sua turma são cercados pelos índios e a câmera fica do vácuo do ator. DiCaprio ziguezagueia entre as árvores e ela continua lá, sobrevoando como uma astronave, captando a aflição. Sobe atrás dele no barco, desce as corredeiras. O herói pula num cavalo e termina se jogando no abismo. A câmera salta junto. Proeza digna, sem dúvida. Não pela autenticidade, já que isso vem sendo aperfeiçoada por Lubezki, desde “Filhos da Esperança” (2006), mas pelo prodigioso esforço dos técnicos envolvidos.

Para o diretor Iñárritu a proeza do outro é uma mão na roda para ele. Seu negócio, como diretor, ė encher olhos. De que e, pra que, são perguntas que ele não perde tempo pra fazer. A engenharia do espetáculo consome esforços. Preocupações com a natureza indomável, o sol que se move, a neve que cai sem controle, o vento que levanta a poeira e pode estragar a cena.

E olha que em entrevistas, o cineasta reforça que sua preocupação o tempo todo em “O Regresso” foi com o realismo.

Que realismo?

O filme é estilizado, artificioso. O brutal ataque de um urso estraçalhando o personagem é “realista”.

De novo outra proeza técnica. Uma criatura inteiramente digital.

A sensação é a de que já vimos este filme antes – e quando isso acontece anulam-se as emoções e começam-se à procura das “referências”. Claro que um tacape em ação, amputador de membros, remete-nos logo ao universo de Tarantino, mas há uma imensa diferença entre o que um contextualiza e o que o outro tenta.  Ao reciclar a série B, Tarantino sempre renova, e do velho e requentado busca um ângulo inusitado. O mesmo não se vê no trabalho deste diretor mexicano saudado como a bola da vez.

Iñárritu não tem desenvoltura, nem criatividade para modular a linguagem. Importante para ele é castigar, entregando o menu com a violência sensacionalista de praxe.

DiCaprio é Hugh Glass. Para nós do Brasil, é apenas mais um nome. Nos EUA, Glass é uma lenda semelhante à de David Crockett ou Billy the Kid, faz parte da cultura popular americana com um sem-número de variantes. Já havia sido adaptada ao cinema por Richard S. Sarafian, em 1971, num bom western, Fúria Selvagem, trocando o nome de Hugh para Zachary Bass (interpretado por Richard Harris).

O Glass de DiCaprio também foi moldado para nos impressionar com seu realismo. O ator é apontado como favorito ao Oscar por isso. O guia da expedição de caçadores de peles que ele faz funciona em dois registros, ambos improváveis. No primeiro revela uma agilidade destemida e tão cinética que torna-se divertido imaginar como trinta homens  conseguem acompanhá-lo na lama e na neve. Coisa de desenho animado.

O papa léguas será surpreendido pelo tal urso digital. Rola uma luta que lembra uma disputa de MMA na selva. E então temos DiCaprio num segundo momento, com uma atuação completamente diferente da primeira. O homem fica em tal estado, que melhor seria abandoná-lo para os corvos. Pra resumir, além de o enterrarem vivo, ele tinha um filho mestiço que o acompanhava. Pois a hora que o rapaz vê o que estão fazendo com seu pai, tenta impedir e é morto.

O nevoeiro denso pode ser uma pedra tumular para certos homens, mas não será para um pai desacorçoado por ver o filho assassinado. É assim que DiCaprio faz seu “regresso”, para poder consumir a vingança. Ele rasteja na neve à mercê da hipotermia, comendo o fígado cru de um búfalo, dormindo dentro da carcaça de um cavalo. Tudo sem filtros. O diretor convenceu o astro de Titanic a viver realmente o jogo da sobrevivência para tornar a jornada mais autêntica.

Oras, até onde um grande ator precisa se sujeitar para nos presentear com uma atuação visceral? Laurence Olivier, Marlon Brando, só pra citar dois, usavam apenas o talento para chegar lá. No entanto, DiCaprio mergulhou na “visão do diretor” e o verdadeiro talento demonstrado aqui, em síntese, é o “eu tive a manha de fazer”. 

Convenhamos, DiCaprio tem mais pra oferecer.

A produção capricha na paisagem apocalíptica. Persegue-se a obstinação demencial do homem em explorar uma natureza que não entende. Os mercadores de peles pisam em terreno indígena sem pedir licença, sequestram a filha do pajė, e num rápido flashback, vemos como eles dizimam uma tribo. Ironia: a civilização tem um espírito destrutivo caprichoso, queima tudo, queima até a si mesmo, só para admirar as chamas que os devoram.

Encenar essa loucura é para poucos. Coppola e Werner Herzog foram dois cineastas que melhor traduziram o fracasso e a ilusão colonialistas, com os extraordinário “Apocalypse Now” e “Aguirre, a Cólera dos Deuses”.

Iñárritu não está neste patamar. Vale-se de macetes mais surrados para parecer inovador. Usa a grande angular, explora os ângulos obtusos, para causar um estranhamento, efeitos que qualquer estudante de cinema experimenta na primeira vez que pega uma câmera. E a disrupção de linguagem é desajeitada e vazia. Não acrescenta, nem surpreende.

Desde o princípio da carreira foi assim. Ele se delícia em mostrar tragédias do fundo do poço. “Amores Brutos”, “21 Gramas”, “Babel”, estes pelo menos tinham alicerces:  roteiros de Guilhermo Arriaga. Com “Birdman”, Iñárritu tentou se convencer que tinha asas para um vôo livre. O roteiro que escreveu com a ajuda de três outros roteiristas era até promissor, mas o plano de direção, de novo, era a proeza pela proeza. Num enredo cheio de toques sutis sobre o valor do teatro como arte, o valor do idealismo, da representação, do minimalismo de Raymond Carver, a constatação da praga da historia em quadrinhos, invadindo tudo, consumindo todos, era preciso uma batuta leve para alinhavar, equilibrar e aprofundar as questões. A opção, do diretor, contudo, foi bem barroca, com uma câmera viajando como se estivesse nas asas de um inseto,  sobrevoando tudo, e nunca se concentrando em nada.  Nem mesmo os atores tinham chances de dizer duas frases, na terceira a câmera já tinha partido. O único momento que não beirava a superficialidade em “Birdman”, era o diálogo entre a crítica de arte e o ator. Quem duvida, faça o tira-teima pra ver.

O resto era logística de produção. Uma magnífica estrutura, diga-se, que de tão superlativa, enganou até Hollywood. Iñárritu tinha vencido o Oscar de direção em 2014 por “Birdman”, e a Academia repetiu a dose em 2015, o que comprova que, às vezes, a unanimidade é cega.

Clique aqui pra você saber em que canais esse filme está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

0 comentário em “O Regresso (2015)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: