Drama

Tempestade Sobre Washington

Avaliação: 5 de 5.

Reparem o efeito cenográfico que Otto Preminger tira do chão na entrada do senado nesta cena de Tempestade Sobre Washington. É claramente um tabuleiro de xadrez, onde homens e mulheres.se locomovem obedecendo  os protocolos.

Se você cinéfilo nunca viu, esse, que considero um dos dez maiores filmes politicos já feitos nos EUA, assisti-lo, é mais que um dever de casa. Dá pra alugar no Apple Store e também não é difícil de encontrar em torrent.

Otto Preminger era mesmo um cineasta abusado. Nos anos 50, Hollywood não permitia que se usasse termos como virgindade ou esperma em seus filmes, e Preminger colocava  as falas na boca de seus personagens de forma acidental (como em Ingênua Até Certo Ponto), ou numa discussão jurídica (Anatomia de Um Crime). Sempre com um diálogo afiado, pertinente e adulto. Mas talvez em nenhum deles Preminger obteve uma visão mais vigorosa do que é a América do que neste Tempestade Sobre Washington. Preminger se apóia no minucioso estudo sobre os bastidores do  jogo de poder no Congresso para mostrar como é frágil a própria convenção do que é estar a esquerda, no centro ou a direita dentro da política.

Uma personagem, à certa altura, pergunta: à esquerda ficam os comunistas? E outra jocosamente responde: Querida, a América é feita de republicanos e democratas. Logo, não existem comunistas, apenas a Extrema Direita e a Direta!

Henry Fonda faz o senador indicado pelo presidente (Franchot Tone) para ser o Secretário do Estado, só que para ser aceito na cadeira, precisa conseguir adesão da maioria do congresso, fato que é mais complicado do que parece. A suspeita de ligações do político no passado com o comunismo chacoalham os ânimos, mas a validação do secretário no fundo não se fixa apenas em ideais, envolve sim o jogo de interesses do grupo.

Charles Laughton é o político com olhos de águia que sutilmente mexe os pauzinhos e deixa o circo pegar fogo evocando Maquiavel: A política é um jogo sofisticado, delicado e complexo, que para ser entendido, exige que prestemos atenção às qualidades e à sorte dos jogadores”.

A concepção satírica dos diálogos é um deleite, o roteiro é coalhado de absurdos propositais que trazem à tona as características mais idiotas do sentimento anti-comunista vigente na época, bem como uma certa propensão a a ditadura nos dois partidos, alicerçada em vasta e abrangente corrupção.

Há momentos no filme em que parecemos num asilo de loucos, mas Preminger, como bom vienense, refina o manicômio. Diabolicamente valsa com sua câmera pelo plenário, produzindo uma maravilhosa sequência de pans e travellings de deixar cinéfilos de queixo caído.

Clique aqui pra você saber em que canal Tempestade Sobre Washington está disponível.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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