Nacional

Pacarrete, o melhor do cinema nacional de volta às telas

Avaliação: 4.5 de 5.

Deixei a quarentena pela primeira vez para ir ao cinema ver o nacional Pacarrete, de Allan Deberton, e que grata surpresa eu tive. Contrariando todas as regras duras dos produtores boçais; sem ação frenética, sem historinha óbvia, sem astros carismáticos, sem tiros e porradas, o diretor cearense, faz um filme sobre uma personagem de sua cidade com uma humanidade e uma delicadeza, que há muito tempo eu não via nas telas. E Allan Deberton conta tudo evitando o “campo” e “contracampo” obrigatórios dos gringos, sem as viradas dramáticas, sem “close-ups” glamourosos, sem diálogos óbvios e explicativos, os finais felizes e outras bobagens.
A câmera, de cara, congela, para a entrada em cena de Marcélia Cartaxo, aquela singela atriz que vimos em outro filme emblemático do cinema nacional, A Hora da Estrela, feito há 35 anos atrás. E Marcélia, agora uma atriz muito mais apurada, cria um número musical, como se estivesse em Cantando na Chuva com uma vassoura na mão.

Pacarrete, esse é o nome exótico da personagem, é uma ex-bailarina clássica e professora de dança, que não admite os hábitos modernos, a dança bruta dos jovens, a música chula da plebe. Na comemoração dos 200 anos da cidade, a sexagenária bailarina quer  apresentar um solo de “O Lago dos Cisnes”, de Tchaikovsky. A secretária de cultura da cidade (interpretada por Samya de Lavor), desesperada, tenta demovê-la da ideia, mas a envelhecida sonhadora, acha que com seu bom gosto, pode transformar o modo como o povo de Russas aprecia a arte.

E de forma quixotesca ela se bate contra todos, é chamada de louca pelos vizinhos, sofre das zombarias das crianças, briga até mesmo dentro de casa, onde a empregada Maria (a ótima Soia Lira), pede para ela deixar o céu e se aferrar um pouco à terra.

Na primeira parte do filme, ela dança, canta, toca piano e insiste tanto, que a gente, da platéia, torce para que alguma coisa de bom realmente aconteça para a personagem. Mas Pacarrete, cujo nome original era Maria Araújo Lima, existiu mesmo na cidade de Russas, local onde o diretor Allan Deberton a conheceu, e ela lutou mas não conseguiu apresentar o “Lago dos Cisnes” como tanto sonhava.

A segunda parte do filme mostra como a mulher continua sua luta para não ser tragada pelo esquecimento enquanto o mundo roda inexorável a sua volta. “Dói, Chiquinha, ela diz a irmã. A realidade dói mais que os meus calos e eu grito tanto e ninguém me ouve”. A única compreensão que Pacarrete obtém na cidade, vem de um cachorro, que ela encontra perdido nas ruínas de uma fábrica, e do moço da lojinha ao lado (João Miguel). As cenas de Marcélia e João Miguel são de uma ternura e generosidade incríveis.

Claro, Deberton não se esquiva do melodramático. Em seu cinema demonstra haver lugar tanto para o riso como para o choro, para bondades moderadas como para perversidades insuperáveis. A  riqueza desse seu primeiro longa não se resume a isso, mas passa por aí.

E esse me parece um dos motivos pelos quais Pacarrete é um grande filme – a loucura lúdica, pela forma como é colocada especialmente no desempenho arrebatador de Marcélia Cartaxo, nos perturba e, mais que tudo, demonstra como as reações humanas são tão complicadas.

Quem prefere terreno firme, talvez não aprecie tanto, mas quem procura um humanismo profundo, é bem recompensado com esse adorável Pacarrete.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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