Clássico Drama

Anatomia de um Crime

Avaliação: 5 de 5.

Anatomy of a Murder (1959)

Produzido e dirigido por Otto Preminger, esse filme baseado em um romance escrito por um juiz da Suprema Corte de Michigan, é um dos maiores de todos os tempos. O juiz do filme é ninguém menos que Joseph Welch, um advogado, que se opôs a Joseph McCarthy nas audiências do Comite da Caça aos comunistas. A história Centra-se em Paul Biegler (interpretado por James Stewart), um advogado que relutantemente concorda em defender um tenente do exército de temperamento curto (Ben Gazzara) acusado de assassinar um homem que supostamente estuprou sua esposa (Lee Remick). A defesa de Biegler se embasa na insanidade temporária do tenente, ex-herói de guerra, ao ver a esposa prostrada e machucada pelo estuprador.

Mas o bisturi cinematográfico de Preminger abria mesmo as entranhas do establishment ao burlar a proibição do estúdio e tratar assuntos adultos de forma realista. Termos como “estupro”, “esperma”, “puta” e “sêmen” nunca tinham sido pronunciados num filme até aquela data. Não só o crime, no filme é descrito com um realismo cru, mas a arte da defesa e do ataque jurídico é captado pela câmera de Preminger com uma paixão (o cineasta, antes do cinema, foi muito influenciado pela filosofia do Direito, graças ao pai que era promotor no Império Austro-Húngaro, e levouo jovem Preminger a se formar advogado).

Preminger, aliás, usa um de seus raros close-ups, do sorriso consciente do juíz, quando dá a sentença, para reforçar essa profunda conexão entre a lei abstrata e as pessoas que a praticam. Nestas e em outras cenas, a humanização de Preminger se aproxima da reverência.

Vale destacar também o desempenho extraordinário de todo o elenco, em especial de Lee Remick como a esposa da virtude fácil com um apetite sexual aparentemente insaciável e James Stewart, figindo dos tipos que simbolizam valores americanos à moda antiga, para se revelar um questionador.

E claro, a trilha musical, de Duke Ellington. Robert Traver, o autor do livro, contou num artigo de jornal sobre os bastidores do filme  que Ellington tocou uma suíte de piano para a equipe num dia de filmagem, e que todo mundo ficou mudo. Mesmo Otto permaneceu sem palavras. Era jazz e ainda assim não era jazz. Foi assustador, adorável, nostálgico, evocativo”, assim como era e continua sendo o filme de Preminger.

O filme assombra por causa de suas muitas ambiguidades, a mais potente das quais ocorre em sua conclusão. O tenente era culpado? Sua esposa foi realmente estuprada?

O advogado ganha seu caso, mas o que ele ganha?

“Adorável” por causa do coquetel de Preminger de momentos frequentes de humor e exposição dos recessos sombrios das personalidades de seus personagens.

“Nostálgico” por causa do firme abraço do filme da história da jurisprudência e do papel que a lei desempenha em grande parte do filme, mais pungente na relação entre os advogados.

E “evocativo” por causa do dom que Preminger nos deixa em seus retratos ambíguos do sistema de justiça americano, seus jogadores e a população maior, que nunca está mais do que um passo de ser varrida em sua voraz fome de verdade em um mundo cheio de tão pouco dela.

Enquanto o advogado e sua assistente esperam o júri voltar, um velho amigo igualmente amante do Direot, oferece um solilóquio maravilhoso:

Doze pessoas saem para uma sala: doze mentes diferentes, doze corações diferentes, de doze diferentes estilos de vida; doze conjuntos de olhos, ouvidos, formas e tamanhos. E essas doze pessoas são convidadas a julgar outro ser humano tão diferente deles como eles são um do outro. E em seu julgamento, eles devem se tornar de uma mente – unânime. É um dos milagres da alma desorganizada do homem que eles podem fazê-lo, e na maioria dos casos, fazê-lo bem. Deus os abençoe!

O filme de Preminger, diligente, fiel, até mesmo reverente à lei, conceitualiza esse quadro dramático tão desconexo já na abertura com os grafismos dos títulos de Saul Bass: pernas, braços, um tronco: completo, mas incompleto. Completo o suficiente para que estejamos livres para arrancar seus significados dos espaços entre eles. Incompleto o suficiente para se assemelhar à lei em torno da qual o filme centra e nos lembrar que a verdade, como o júri a acha, é tão evasiva quanto os bleats finais da trombeta na partitura de Ellington, ainda audível depois que a última imagem desaparece.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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