Entrevista

Diário de Produção: filme “Meninas”

Adoro atores. Adoro porque são corajosos. Todo bom trabalho requer auto-revelação. Um músico transmite sentimentos através do instrumento que toca, um dançarino, através dos movimentos do corpo. O talento de representar é aquele em que os pensamentos e sentimentos do ator são comunicados instantaneamente ao público. Em outras palavras, o “instrumento” que o ator usa é ele mesmo. São seus sentimentos, sua fisionomia, sua sensualidade, suas lágrimas, seu riso, sua raiva, sua ternura, que estão ali na tela para que todos vejam. Isso não é fácil. Pra dizer a verdade é doloroso.
Por isso, os admiro tanto.
No filme “Meninas”, tenho cinco atrizes pra minha câmera, todas muito corajosas e prontas para se equilibrar na corda bamba que estiquei para elas. Que responsabilidade eu tenho em minhas mãos!
Mas elas, todas as cinco são incríveis! Gostaria de apresentá-las para vocês numa entrevista (falarei com uma delas, por semana), para mostrar como não estou errado com as minhas escolhas.

Entrevista com a atriz Rosana Brandão:

Hamilton Rosa Jr. – Rosana, sei que você ama música e quem trabalha com música normalmente tem um sentido muito apurado para ruídos. Então, nesta época tão desafinada, o que você faz para aguentar tanto barulho?
Rosana Brandão –
Olha tem vários tipos de barulho, né? (risos) Por uns eu brigo, eu discuto, eu falo o que eu penso. Veja essa rua, odeio o barulho desse trânsito (risos), e tem outros que eu tenho que aceitar. Procuro levar as coisas de uma forma leve, tentando relevar…

HRJ – … O barulho político, inclusive?
Rosana –
Então, esse aí eu não me conformo. Já briguei com muita gente, perdi várias amizades. Ah, sou capricorniana, então já viu, né? Eu vejo tanta coisa errada e tem gente que aceita! Como pode? Por isso eu faço questão de ir nas passeatas e demonstrar minha indignação. Aqui o que eu acho, ó: (Rosana corre até o quarto e volta com uma placa escrita Fora Bolsonaro!). Eu levanto essa placa quantas vezes for preciso. Graças a Deus meu pai era de esquerda, e minha família acompanhou… então desta herança tenho muito orgulho.

HRJ – Bom, quem canta seus males espanta. Você canta muito bem: você é professora de música?
Rosana –
Não, eu faço a administração da minha escola de música, juntamente com Jairo Silveira, professor de piano e regente de coral – Escola Musicativa. Eu trabalhei a vida inteira como bibliotecária, mas um dia, conversamos sobre a possibilidade de usar minha experiência para montar uma sociedade, e aí, montamos uma escola. Claro, isso é consequência também de eu gostar muito de música e de cantar. Canto e sou muito afinada. (risos)

HRJ – Você é pragmática?
Rosana –
Sim, tenho um lado artista, mas eu sou muito pé no chão. Olha, eu tenho um senso de observação bem apurado: eu realmente vejo as pessoas e saco qual é a delas… acho que o tempo faz isso com a gente. Isso não quer dizer que eu não adore sonhadores.

HRJ – As pessoas estão cada vez mais escravas da aparência e parece que vivemos num mundo onde é proibido envelhecer… já eu cada vez acho que envelhecer é maravilhoso, olho meus amigos e minhas amigas e acho-os cada vez mais charmosos e interessantes. Será que estou falando isso por que estou envelhecendo? .
Rosana –
(risos) Olha, eu não vou mentir. Eu to muito preocupada comigo. Ontem fui ao dentista e ele falou que precisava fazer um empréstimo, e eu disse pra ele aproveitar em quanto é jovem, porque quando a gente envelhece, não consegue mais fazer… e ele disse, mas nossa, você não é tão velha assim. Aí perguntei: Quantos anos você acha que eu tenho? E ele falou: uns cinquenta.
Ganhei o dia com a observação dele (risos). Pelo menos externamente…

HRJ – Acho que é o espírito da gente que dita isso. Tem gente que envelhece bem.
Rosana
– Verdade, você por exemplo parece bem alinhado, quantos anos você tem?

HRJ – Ah, não, a entrevistada aqui é sobre você… (risos)
Rosana –
(risos) Então, acho que o modo de ver a vida conta, né? Tem lugar que você já percebe que, se entrar, pode ganhar algumas rugas.

HRJ – Escrevi o Meninas pensando nessa questão. O que há de errado em envelhecer e continuar indo pra baladas? Algumas coisas mudam um pouco, mas outras continuam. Veja o desejo: quem disse que depois dos 50 a sexualidade acaba? Não termina.
Rosana –
Fica diferente, né? Mas é verdade. Eu estou assistindo agora aquela série Verdades Secretas, e eu tava vendo a personagem da Eva Vilma falando sobre isso. Ela diz: eu continuo gostando de um cafuné, de namorar, de sair… a gente precisa de companhia.

HRJ – Agora, estamos bem no olho do furacão do primeiro mal deste século e, por conta disso tivemos que viver uma quarentena. Como foi esse período pra você?
Rosana –
Ruim. Acho que foi para todo mundo. É horrível você ser privada de sair e fazer as coisas que gosta, depois de todas essas mortes, meu Deus… mas eu esperei. Procurei continuar fazendo coisas aqui dentro de casa, sem me desesperar. Tenho um lado… eu adoro ficar sozinha. Claro que eu gosto de gente, mas eu gosto de desfrutar de uma boa solidão. Fazer meus crochês, meus bordados, meus exercícios diários, comecei até um curso de italiano. Continuei recebendo visita dos meus filhos, que mora em São Paulo e outro no exterior … e eu li mais, vi mais filmes. Procurei me cuidar, ser sensata, torcendo para que todos da minha família continuassem sendo sensatos também. Foi duro, e continua sendo, você ver em volta, e sentir a perda de amigos, de conhecidos, e sabendo que esse terror está bem próximo, pode entrar na sua casa, e acabar com tudo.

HRJ – A origem deste mal, na verdade, não vem exclusivamente da China, né, Rosana? Ela vem de algo maior, um sistema que explora, controla e adora impor a vontade em benefício próprio.
Rosana –
Com certeza, isso vem dessa ânsia de exploração, de manipulação humana, de desrespeito a natureza, de desrespeito a nós mesmos como sociedade. A gente tá se destruindo. E eu não consigo ver isso de uma forma otimista…

HRJ – É, se o sistema não mudar…
Rosana –
E você acha que vai? Veja o governo que temos? E tem gente que continua apoiando! Como a gente pode pensar num mundo otimista com essa turma?

HRJ – Mas logo eles vão sair…
Rosana –
Talvez a esperança esteja com nossos filhos, talvez eles consigam. Eu falo para o Luca, meu filho, que está estudando economia internacional: Luca, a minha geração não tem mais remédio, mas você e a Beatriz, ainda podem mudar o mundo.

HRJ – Queria que você olhasse pra trás agora Rosana, lá pra sua infância, fechasse os olhos e, me dissesse quem era a menina Rosana?
Rosana –
Eu era tranquila, quieta. Mas por volta dos 10 anos já fazia teatro na sala de casa com uma amiga para nossos pais verem, era uma delícia, tinha palco decorado e tudo! Tive uma infância ótima, rodeada de parentes, tias adoráveis.
Depois vieram alguns problemas financeiros. Mas foi bom, logo cedo recebi esse choque de realidade. Comecei a estudar, e coloquei na minha cabeça que a primeira coisa que eu devia lutar, era para ter um bom emprego. Foi importante pra mim: aos 26 anos, eu já estava comprando minha casa. Eu queria ter o meu lugar e não depender de ninguém.

HRJ – E continua assim hoje?
Rosana –
Continuo mais independente do que nunca. Não preciso dar satisfação pra ninguém. Se você chegar aqui e me convidar pra jantar: eu vejo a agenda, e se tiver livre, eu falo, vamos. Enfim, eu faço o que quero, vou aonde quero e adoro isso.

HRJ – Sua personagem no filme se chama Paula. Que leitura você faz da Paula?
Rosana –
Bom, ela é uma mulher que namora outras mulheres, mas é um pouco reservada sobre a opção sexual dela e, acho que no primeiro roteiro, os diálogos davam mais pistas que a definiam, mas depois você foi depurando o texto, tirando os diálogos…

HRJ – Ela continua a mesma personagem. Acho que vocês são muito parecidas, essa independência que você diz que conserva, ela também tem. O que eu fiz quando tirei os diálogos foi procurar situações que dessem pistas, através de gestos e de olhares, de quem a Paula era. Na vida, a gente não revela o que somos por diálogos expositivos. Senti isso no primeiro roteiro, tava muito teatral. E, no fim, a quarentena me ajudou a pensar melhor nisso. O texto final está bem mais cinematográfico e, nos vamos ensaiar, para essa personalidade da sua personagem se reafirmar assim.
Rosana –
Sim, estou louca para começar os ensaios!

HRJ – Em breve, faremos isso. Uma última pergunta, Rosana: imagine que você acaba de ganhar um dia num paraíso à sua escolha. O que você gostaria de levar junto com você e quem e o que não pode estar lá?
Rosana –
Primeiro, eu ficaria feliz, porque não encontraria mais nenhum bolsonarista (risos). Mas… (breve pausa, com o olhar distante) acho que eu levaria alguns amigos próximos… sabe porque na Pandemia eu fiquei tranquila? Por que eu tinha grupos de amigos que eu me relacionava online. A gente ficava conversando horas e horas. Trocando ideias, rindo e se divertindo.

HRJ – Mesmo sendo virtual, isso te ajudou?
Rosana-
Ajudou muito. Tenho muitos amigos. Inclusive tenho as Meninas do filme. Eu, a Stella, a Mila, a Elizinha… nos conhecemos há quase 40 anos, e nunca deixamos de nos falar. Então eu levaria essas amigas e mais alguns amigos e também um balde de cerveja gelada. Um balde com garrafas cheias que nunca acabassem.

Gostou da entrevista?

Venha fazer parte da nossa campanha.

Colabore com a arte de Campinas e região, ajudando a gente a produzir o filme “Meninas”.

Link da contribuição: https://nova.kickante.com.br/financiamento…/filme-meninas

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

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