Cineasta

O Cinema de David Fincher em reexame

Ainda não vi Mank, o filme que muita gente vem dizendo que vai dar o Oscar a David Fincher, mas conheço muito bem a filmografia do cineasta. Não gosto de tudo que ele fez, mas o sujeito tem personalidade e em seus filmes há inquietações que pedem mais que duas, três palavras. A galeria de personagens de Fincher é desconcertante. Estão sempre em trânsito, sem identidade, escondidos do mundo real, das contas bancárias, do círculo familiar. E chegam a um ponto insustentável, onde há escolhas dramáticas a fazer. Nisso se tornam profundamente amorais, como o insone de dupla personalidade (Edward Norton) que implode os prédios do sistema financeiro em Clube da Luta, ou o irmão mefistófilo (Sean Penn) que transforma o cotidiano do irmão mais velho (Michael Douglas) num inferno em Vidas em Jogo, ou ainda o policial marionete (Brad Pitt) afoito para cortar os cordões, em que se enrosca ainda mais na condição graças a um serial killer (Seven), ou (por que não?) o jovem gênio da computação liquidando as amizades com um click assassino em A Rede Social.

É um festival de mesquinhez, traições, vícios. O acre odor desses personagens se espalha, tentando reduzir o mundo numa coisa só, numa única formulação. São personagens desagradáveis, mas o curioso é que ainda assim ficamos ao lado deles. Por que? Talvez pela escala de contradições humanas que apresentam. Sentimos ódio, compaixão, amor, repulsa e, quase sempre, todos esses sentimentos estão entrelaçados e inseparáveis. São sobre jovens que os filmes de Fincher tratam, e a câmera os aborda como se estivesse compondo um diário, repleto de flechas, desenhos, apontamentos, cheio de notas de digressões subterrâneas. Se a vulnerabilidade dessas confissões nos comove, é porque todos fomos jovens um dia. Por outro lado, são jovens do século XXI que Fincher aborda, um grupo que assusta, pelo seu aspecto tribal, adornado por piercings e tatuagens; por uma linguagem coloquial subversiva, parte dela herdada das gangues do narcotráfico; e por uma violência, que antes não pareciam sujeitos como agora. Antes não havia garotos entrando nas escolas e fuzilando o professor e os amigos, hoje tornou-se mais comum do que deveria. Fincher, não subestima a classe nem o sintoma de horror que os cercam.

Clube da Luta é a obra-prima sobre o assunto. Jovens se batem contra um mundo ordeiro, nazi e eficiente, e acreditam que podem reiventá-lo, mas a saída que encontram é ironicamente ordeira, eficiente e igualmente doente: vamos resolver tudo na porrada.

Essa fragilidade transcende o particular. Já conhecemos dos livros de história. Ela faz a humanidade girar envolta do próprio rabo. Ela já nos deu o fascismo, o holocausto, a bomba atômica. Deu mil Guernicas.

Sexo e morte, sublime e sórdido – que outros elementos podem ser mais aflitivos numa civilização que se diz próspera, mas que continua propensa a sabotagens, traições e safadezas mil? O medo congela os ossos, o medo por sabermos que o homem civilizado tem imaginação para sair dessa, mas teima em se repetir.
Dostoievski e Nietzsche nos advertiram antes. Fincher endossa o assunto fazendo filmes insolentes.. Ele cresceu em uma família de classe média, mas os seus vizinhos eram alguns dos maiores nomes de Hollywood. “George Lucas era meu vizinho, Francis Coppola estava filmando O Poderoso Chefão em Shady Lane, que era bem próximo. Havia um monte de filmes ao redor “.

Lucas, que ainda não tinha feito Star Wars, embarcava na experiência de fazer Loucuras de Verão. “E eu, moleque, estava andando na rua um dia com um amigo e vi uma equipe montando as luzes para Loucuras de Verão na frente de casa. Então vimos um velho [Ford] Thunderbirds chegando ao set. Depois os atores e em questão de horas eles foram capazes de transportar a gente de volta aos anos 1950, com guarda-roupa, penteados e toda a cenografia. Que sorte eu tinha, imaginava. Se tivesse sido criado em Idaho, em vez de Marin County. Eu seria um fazendeiro. Estaria entregando bezerros agora.”

Esse sarcasmo parece fazer sempre parte da personalidade de Fincher. Lendo entrevistas com o diretor, um ponto sempre se sobressai: o humor. E junto com ele, o prazer de desmistificar a própria importância. “Com 20 anos eu era puro clichê. Queria ser como Steven Spielberg ou George Lucas. Mas não consegui deixar de ser David Fincher. Eu queria ir para a Universidade do Sul da Califórnia (USC), mas nunca fui um bom aluno e não tinha as notas para entrar”.

Ou para narrar maldades particulares. “Houve uma época em que perturbava minha irmã e sua coleção de bonecas. Elas eram tão anatomicamente corretas, que pareciam bebês de verdade. E ela tinha umas cinco ou seis delas, e nós pensávamos, ‘Ela não vai ligar se perder algumas”. Então Fincher e os amigos rolavam as bonecas em ketchup e carne crua para simular sangue e tripas e atiravam na rodovia.

Curioso como Fincher saboreia a ideia de projetar uma imagem insolente até na própria vida. Pouco importa até onde está entranhado na sua personalidade, ou se o discurso é calculado como uma cortina de fumaça para protegê-lo. O que importa é sua obra. E definitivamente, como vamos ver a seguir, ela não é movida por um arroubo de inspiração, a aparente secura de Fincher segreda uma emoção profunda.

Hamilton Rosa Jr. é jornalista atuante há mais de 30 anos na mídia. Foi crítico de cinema na Folha da Tarde e Folha de S. Paulo, editor das revistas Ver Vídeo, DVD News e criador do blog Cinelog. Idealizou e dirigiu o programa de TV Mundo do Cinema. De 2005 pra cá, passou a direção de cena onde mantém-se em atividade rodando comerciais e filmes corporativos. Dirigiu quatro curtas: “Desencanto” (2016), “Sua Excelência” (2017), "Abelha Rainha" (2019) e "TRALA LAND" (2020). Tem três novos projetos em desenvolvimento para cinema e TV: o curta "ATRIZ", a ficção "A Máquina" e a comédia "Amores Perfeitos".

0 comentário em “O Cinema de David Fincher em reexame

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: